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 Concurso 1 - Emergir

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Cats
Little Schrei
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Mensagens : 250
Data de inscrição : 05/03/2010

MensagemAssunto: Concurso 1 - Emergir   Qua 24 Mar 2010, 16:14

Título: Emergir
Género: drama
Avisos: ? muito cliché e toneladas de lamechisse
Beta-reader: MariaR aka Urinapakova
Spoiler:
 


Emergir


Gustav Schafër nunca fora um grande adepto de mar. Desconfiava que aquela relutância com que sempre tinha olhado para as ondas se devia ao facto de, um dia, quase ter perdido a vida no meio da espuma branca que borbulhava após cada rebentação, alastrando-se impiedosamente sobre o azul límpido e cristalino.

Tinha seis anos de idade quando ignorara os avisos cautelosos do pai e, desafiando aquele tapete cor de céu que se prolongava até perder de vista, se atirara sem qualquer precaução para a água agitada, furando as ondas que se tornavam maiores a cada segundo que passava.

Durante os quase dois minutos em que estivera submerso, Gustav lembrara-se das noites em que a sua mãe o ia aconchegar à cama, depositando-lhe um suave beijo de boa noite; recordara a primeira vez que os pneus da sua bicicleta tinham rasgado o asfalto, e quase ouvira os aplausos entusiasmados do pai ecoarem ali, por entre o marulhar agonizante, resultado do vaivém incessante de ondas. Acima de tudo, o pequeno rapaz pensara nas saudades que ia ter de brincar com a sua irmã, Franziska, assim como nas vezes em que ela teria que explorar o quintal da casa de ambos sozinha. Sentira-se mal com a ideia de a deixar desamparada.

Acabara por ser salvo pelo pai, embora não sem antes se perder na imensidão da água, sentindo o seu pequeno e frágil corpo ser arrastado como se não fosse sólido e não tivesse qualquer peso. Tinha sido uma marioneta nas mãos do Oceano, e era isso que fazia com o seu respeito para com Ele se tivesse tornado de tal modo grandioso, que jamais voltara a perturbar a quietude própria e característica daquele gigante.

O fascínio pela Natureza permaneceu na sua vida, vincando drasticamente a sua personalidade. O seu espírito aventureiro ensinara-o a explorar e, acima de tudo, embutira-lhe uma enorme paixão por tudo o que era verde. Era dos poucos homens que admitia gostar de flores, e era também das raras pessoas que se refugiava entre árvores quando precisava de pensar, em vez de se isolar entre quatro paredes.

Assim, a única excepção, o único elemento da Natureza pelo qual nunca mais se atrevera a aventurar, era o mar.

No entanto, agora estava ali, caminhando em direcção à ondulação borbulhante, tropeçando nos pedregulhos que se atravessavam pelo seu caminho. Se aquela fosse uma situação normal, se aquela fosse uma praia igual a todas as outras, interpretaria os obstáculos como um sinal de que não devia avançar. Afinal, as ondas pareciam não gostar muito de si…

Mas aquela não era, de todo, uma situação normal; e, mais do que isso, o local onde estava era tudo, menos uma praia igual às outras. O areal rochoso era o único que pisara durante muitos anos, e aquela água fria e intolerante parecia aceitá-lo, tal como ele aprendera a viver com ela. Ambos, o rapaz e o mar, tinham aprendido a tolerarem-se mutuamente; simplesmente porque ambos se recusavam a abdicar da pessoa que gostava tanto de um, como gostava do outro.


19 De Fevereiro de 2010

- Hoje sou eu quem decide o que vamos fazer. – Anunciou a rapariga, fazendo com que na sua voz suave e cristalina pendesse uma gota quase imperceptível de autoritarismo.

- Tens planos? – Perguntou ele, incapaz de ocultar a satisfação que sentia. Andava a tentar impressioná-la há tanto tempo, que começava a ficar sem ideias de onde a levar a seguir.

- Vamos a um sítio especial… – E sorriu tão largamente que, por momentos, Gustav sentiu-se embriagado com a luz que pareceu projectar-se na face angular. – Vou levar-te à minha praia!

Sentiu o seu estômago embrulhar-se numa pequena e desconcertada bola de papel. – Praia?

- É uma praia selvagem e quase ninguém sabe da existência dela. – Explicou ela. - Vamos poder conversar sem que estejas sempre a olhar para trás do ombro, com medo que alguém te reconheça.
´
Gemeu. Aquele argumento tornava tudo demasiado tentador, mas a ideia de se aproximar tanto do mar deixava-o realmente relutante.

- Vamos? – Insistiu ela, mostrando-se entusiasmada com a possibilidade de partilhar “a sua praia” com aquele rapaz. – Vamos, está decidido! – Declarou, ignorando a expressão de dúvida que inundava a face dele.

Como poderia negar-lhe algo? Gustav estava perfeitamente consciente do efeito que Meg tinha sobre si. Perguntava-se até que ponto a sua submissão se expandiria, quando efectivamente provasse o doce viciante que certamente seriam os lábios dela.

Suspirou só de pensar no assunto e de seguida sorriu. Não havia mar nenhum capaz de o assustar se Meg estivesse por perto. – Vamos.



A imagem do Sol a atravessar a neblina baixa, característica daquele local, informava-o do eminente fim do dia. Em breve os raios luminosos deixariam de incidir sobre o mar, fazendo com que a ilusão de uma linha de prata deitada sobre o horizonte se desvanecesse, dando lugar a uma noite cerrada, apenas salpicada pelo brilho tosco das estrelas longínquas.


2 De Abril de 2010

Já não podia contar pelas mãos o número de vezes que pisara o areal rochoso e disforme daquela praia. Tudo o que agora sabia era que aquele local se tornara tão familiar como as rugas que traçavam o rosto de Meg sempre que ela sorria. Assim como reconhecia cada linha e o seu significado, seria também capaz de percorrer aquele trilho irregular de olhos vendados.

Deixara de ter medo das ondas. Observar a maneira como Meg seguia maravilhada os movimentos serpenteantes da água fizera com que aprendesse a apreciar o cântico suave daquele local, a beleza da espuma que se formava com cada rebentação. Ver o mar através dos olhos da rapariga permitira-o recortar mais do que a força poderosa que um dia estivera perto de lhe roubar a vida. Agora via cor, aceitava com júbilo os pingos que embatiam na sua face ardente, perdia-se por entre os movimentos cadentes, hipnotizava-se com o som…

- Um dia vou ter uma casa aqui! – A voz dela cortou o silêncio, penetrando deleitosamente nos ouvidos de Gustav. Fosse ou não imaginação sua, tinha a certeza de que o tímido sol de Primavera começara a brilhar com mais força.

- Eu também gostava… – Sentiu-se surpreso com o seu próprio desejo, mas depois percebeu que só seria capaz de viver ali se ela estivesse consigo. Sem o reflexo daqueles olhos, o que teria aquele lugar de tão especial? O que o prenderia ali?

A rapariga sorriu. – Então vamos ser vizinhos. – Declarou.

- Eu acho que seria cruel estragar esta paisagem com duas casas enfiadas aqui no meio… – Contrapôs. – Uma chegava para os dois. E bem pequena, para que pudesse sentir-te sempre por perto.

Se já se sentia arrepiado de cada vez que o som daquela gargalhada o presenteava com o seu tom melódico, Gustav desconfiava que naquele momento seria capaz de desmaiar. Como podia um som tão afinado e harmonioso existir?

Os olhos de Meg brilhavam e, através do seu tom azulado, Gustav viu o reflexo do mar. E apesar de tudo, nunca o mar lhe parecera tão belo e tão imponente, como naquele momento.



A sua mente continuou a brincar com as memórias, acelerando e desacelerando, discorrendo exaustivamente através de imagens recheadas de sorrisos, povoadas de abraços e adocicadas com carinhos.

Atento aos seus pensamentos, às lembranças impostas pela sua simples presença naquele local, continuou a avançar, percorrendo agora o caminho com um automatismo natural.


6 De Janeiro de 2011

- Não quero que vás! – Choramingou a rapariga. – O que é que vai ser desta praia sem ti?

- Sabes, essa questão costumava ser minha… – Disse, por entre uma curta gargalhada.
A rapariga ignorou aquela observação e rebolou na areia, sentindo o seu corpo ser amolgado pelas pedras negras que polvilhavam o areal. – Vou ter demasiadas saudades…

Com o Sol oculto pelo rosto dela, Gustav abriu os olhos e focou-os no azul que era o seu mar. Lentamente, afagou a pele morena com que tantas vezes sonhara e sorriu. – Quando voltar mando construir a nossa casa…

Meg fechou os olhos. – Podia ficar aqui para sempre sem casa nenhuma, desde que ficasses comigo.

E então, movido por uma força muito maior do que a sua vontade, o rapaz puxou-a para si e, com os olhos fechados, procurou os lábios rosados que tantas vezes provara, e que tanto o tinham viciado, tal como um dia havia previsto. Acariciou a boca carnuda com a ponta da língua e depois, incapaz de se afastar, voltou a cobri-la com os seus lábios.



Subitamente, a beleza dos retratos de alegria foi ofuscada por lágrimas intrusas; as imagens de felicidade foram afastadas, brutalmente substituídas por uma tristeza profunda.

Dor… Dilacerante… Cortante. Inesquecível.

Limpou a lágrima que escorria pelo seu rosto, fazendo a sua pele latejar, e continuou a rasgar caminho por entre o areal movediço. Era a primeira vez que punha os pés naquele local sem Meg, e isso fazia com que o temor o abarcasse novamente. Nada ali brilhava sem a presença dela; tudo parecia desfocado e embaciado.

Aproximou-se da água agitada e sentiu-a subir pelos seus pés descalços, provocando um formigueiro que se alastrava lentamente por cada centímetro do seu corpo. Na última vez que se tinha atrevido a tamanha aproximação, o seu corpo de menino havia sido dominado pela dormência. Quase sucumbira a ela.

Respirou fundo, apelando a toda a sua coragem, e avançou um pouco mais, agora sem cautela ou qualquer receio. Quando a água cobria todo o comprimento das suas pernas, embatendo-lhe na zona da cintura, estacou, deixando os seus braços baloiçar suavemente ao sabor da maré, sentindo a água envolver cada parte de si, abraçando-o de forma quase carinhosa.

Fechou os olhos.

Deixou de sentir o vento. A brisa tornou-se imóvel, assim como pararam todas as ondas e se calaram todas as gaivotas. Sentiu-a junto de si; tão perto que jurava poder tocá-la. Estava prestes a dizer-lhe o quanto sentia a sua falta, o quanto precisava que ela voltasse, quando o vento voltou a uivar, arrastando-a consigo na sua agitação tempestuosa.

E então soube que Meg não voltaria a estar consigo. Foi quando essa certeza o atingiu que voltou a subir as cortinas que impediam os seus olhos de ver, ganhando uma súbita consciência do local onde se encontrava.

A água permanecia calma e límpida, mas Gustav sabia o quão traiçoeira ela podia ser. Sentiu o pânico apossar-se de cada partícula do seu ser, mas nem assim conseguiu obrigar os seus pés a moverem-se.

- Gustav! – Ouviu. Por momentos a esperança invadiu-o, aquecendo a sua pele gelada e fazendo-o olhar em roda, buscando a origem do som.

Ficou confuso quando viu três figuras empoleiradas na rocha mais próxima, que não se distanciava mais do que um metro. O que estavam eles a fazer ali?

Olhou para as suas próprias mãos, mergulhadas no líquido glacial que começava a formar uma fina película de gelo sobre a sua pele. – Estou a afundar-me… – Acabou por dizer, de forma suficientemente audível para que os outros pudessem discernir as suas palavras.

Não estava a referir-se a algo físico. Sentia os pés bem assentes no chão, assim como sabia que se tornara num homem adulto e que, por isso, não era qualquer a onda capaz de o derrubar, se ele quisesse manter-se de pé. Na verdade, o mar que agora ameaçava submergi-lo era constituído por saudade e uma sensação de perda tão insuportável, que quase desistia da ideia de nadar até chegar à superfície.

Ouviu o suspiro de cada um dos seus amigos, e isso obrigou-o a fitá-los novamente. Quando esperava que eles virassem as costas e se fossem embora, Tom, o que estava mais à frente, estendeu-lhe a mão. – Nós sabemos… – E esticou mais o braço, como se fosse possível alcançá-lo. - … E não vamos deixar.

E então, ao olhar para os rostos que o observavam com ansiedade, sentiu-se furar a pouco e pouco a camada de Oceano que o cobria. A preocupação que estava patente na face de cada um dos seus amigos desencadeava de novo a vontade de respirar, vontade essa que julgara ter sido totalmente apagada pelo desaparecimento de Meg.

Eles estavam ali. E tal como sempre soube que aquele mar nada faria para o magoar enquanto estivesse na presença da rapariga, descobriu naquele momento que mal nenhum seria capaz de o afundar, enquanto aqueles três estivessem prontos para o puxar para cima.

Estava a naufragar, sim; e desta vez não tinha o seu pai por perto para o retirar do meio das ondas, nem Meg para o imunizar face à força da Natureza. No entanto não se sentia menos protegido por isso… Estavam ali três pessoas que, sabia, nunca o deixariam afundar-se. Nem em si mesmo.

Brindado com uma força de vontade que nunca pensara ter, ordenou às suas pernas que se movessem, afastando a água a cada passada, e avançou lentamente, sentindo-se emergir a pouco e pouco. Quando estava suficientemente perto, estendeu o braço e fez com que a ponta dos seus dedos tocasse na mão de Tom. Entrelaçou os dedos nos do amigo e deixou que este o puxasse, para que, de seguida, o seu corpo fosse amparado pelos três abraços que o esperavam ansiosamente.

Percebeu então que por muito que a corrente o puxasse, a força da amizade era mais forte do que qualquer maré.

Enquanto os três continuassem a segurá-lo, nada havia a temer.


Fim


Última edição por Cats em Qua 24 Mar 2010, 16:17, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Concurso 1 - Emergir   Qua 24 Mar 2010, 16:16

Melhor One Shot com o Gustav E-V-E-R
E não, não foi falso :C Foi a primeira que gostei mesmo mesmo mesmo.

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MensagemAssunto: Re: Concurso 1 - Emergir   Qui 25 Mar 2010, 14:21

Bem Cats, não estava à espera de outra coisa de ti.
Está perfeita. Definitivamente.
Adorei o paralelismo entre os dois mares que fizeste no final, o mar que ele sempre temeu e o mar que afinal se preparava para lhe fazer mal.
Achei a shot mesmo original, pelo facto de não ser apenas sobre um dos rapazinhos e uma rapariga, mas também por salientar e descrever tanto a amizade dos 4 meninos.
Achei uma maneira perfeita de acabar.
Parabéns : )
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nans.
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MensagemAssunto: Re: Concurso 1 - Emergir   Sab 27 Mar 2010, 17:17

Ora ... boas, vamos a mais uma critica ...
Fantástico. Começas-te a one-shot com um significado e acabas com outro; amor e depois amizade. E só esse facto consegue transformar a história em algo fora de série.
A escrita é bastante boa, tendo que te felicitar pelas comparações excepcionais que fazes. Bastante boas.
A interpretação da imagem está bastante presente, muito bem interpretada.
O titulo é bastante adequado ...
Parabéns pelo excelente trabalho.
´
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Devilish
Bonitos & Jeitosos
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MensagemAssunto: Re: Concurso 1 - Emergir   Dom 28 Mar 2010, 09:00

Bem esta foi uma das melhores one shots que ja li em toda a minha vida!
Tu escreves completamente BEM!
Nem tenho palavras só...Continua a escrever assim.Smile
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MensagemAssunto: Re: Concurso 1 - Emergir   

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